THE LUXURY TEA← Início

Luxo · Especial

Burberry encontra em Celia Birtwell uma forma mais humana de trabalhar seus códigos

No encerramento da London Fashion Week, Daniel Lee combina outerwear, estampas desenhadas à mão e a memória da designer britânica em uma coleção de verão comercial sem ser anônima.

A Burberry encerrou a London Fashion Week em 21 de setembro com a coleção Summer 2027 de Daniel Lee, apresentada no Chelsea College of Arts. Os 61 looks colocaram o outerwear da casa em diálogo com Celia Birtwell, designer têxtil associada à cultura visual britânica dos anos 1960 e 1970.

A colaboração não funciona como aplicação de uma assinatura famosa sobre produtos prontos. Birtwell redesenhou à mão o check da Burberry, tornando suas linhas menos rígidas, e cedeu florais e desenhos de arquivo — alguns nunca produzidos — para a coleção. O resultado aproxima dois repertórios britânicos sem apagar a identidade de nenhum deles.

O gesto manual dentro de um código global

O xadrez é um dos ativos mais reconhecíveis da Burberry, mas justamente por isso corre o risco de funcionar como superfície automática. A versão de Birtwell introduz irregularidade e memória do gesto. Em vez de negar o código, a coleção mostra que uma marca pode renová-lo por meio de interpretação autoral.

Os florais aparecem em vestidos, camisas e peças leves; trenches ganham seda, couro colorido, volumes arredondados e golas franzidas. O vocabulário do clima britânico permanece, mas perde solenidade. Até o guarda-chuva bordado funciona menos como acessório funcional e mais como humor sobre a imprevisibilidade do verão.

Herança que precisa circular

A coleção chega em um momento de recuperação para a Burberry. Depois de reduzir complexidade e recolocar outerwear e códigos britânicos no centro da estratégia, a maison voltou a registrar crescimento de receita, segundo a cobertura financeira da temporada. A passarela precisava, portanto, equilibrar reconhecimento, desejo e viabilidade comercial.

A presença de Birtwell ajuda nesse equilíbrio. Sua história conecta moda, arte, interiores e cultura doméstica — ela também é conhecida por sua relação criativa e pessoal com David Hockney. Essa dimensão dá às estampas densidade cultural sem transformar a coleção em uma reconstrução literal dos anos 1970.

O desfile e o museu contam a mesma tese

A apresentação ocorreu no mesmo dia em que a Burberry abriu no V&A a mostra “The Burberry Trench: Crafting an Icon”. Os dois projetos são distintos, mas formam uma narrativa coerente: no museu, a casa explica a construção e a evolução do trench; na passarela, mostra como um repertório histórico pode continuar em movimento.

Essa combinação é mais relevante do que uma campanha isolada de aniversário. Arquivo, exposição, coleção e colaboração criativa se reforçam sem depender de uma única imagem publicitária. A Burberry transforma patrimônio em programação contínua e, ao mesmo tempo, mantém produto novo no centro da conversa.

O que o movimento sinaliza

No luxo contemporâneo, códigos reconhecíveis continuam valiosos, mas repetição pura tende a produzir cansaço. A resposta de Lee foi introduzir outra mão — literalmente — no sistema visual da maison. O desenho imperfeito de Birtwell devolve singularidade ao que poderia parecer excessivamente controlado.

Para marcas com história, a lição é clara: preservar identidade não significa congelá-la. O arquivo ganha valor quando encontra criadores capazes de ler suas estruturas e mudar o ritmo, a textura ou a escala. A coleção Summer 2027 faz isso com leveza e oferece à Burberry uma continuidade que não depende de nostalgia.

CompartilharWhatsAppLinkedIn

Continue lendo