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Luxo · Especial

Burberry leva o trench coat ao V&A e transforma arquivo em programação cultural

A mostra gratuita que abre em Londres percorre a origem técnica, a construção e 25 anos de reinvenções do trench — e antecipa uma parceria permanente entre a maison e o museu.

A Burberry abre em 21 de setembro, no Victoria and Albert Museum, uma mostra dedicada ao produto que mais claramente concentra sua história. “The Burberry Trench: Crafting an Icon” reúne material raro do arquivo da maison e da coleção do V&A, em acesso gratuito na Prince Consort Gallery, até 3 de janeiro de 2027.

O projeto marca os 170 anos da casa britânica, mas evita o formato de retrospectiva extensa. O percurso é conciso e organizado em três ideias: invenção, construção e criatividade. O resultado é uma leitura do trench coat como objeto técnico antes de tratá-lo como símbolo de moda.

A utilidade antes do ícone

A exposição parte do desenvolvimento da gabardine de algodão por Thomas Burberry, em 1879. O tecido oferecia proteção contra o clima com maior respirabilidade e liberdade de movimento do que alternativas enceradas ou emborrachadas. Essa lógica funcional ajudou o casaco a atravessar o uso militar, a vida civil e diferentes ciclos de estilo.

Catálogos do início do século 20 e peças raramente vistas mostram como o produto foi sendo codificado. Um car coat de 1979 pertencente ao estilista Hardy Amies acrescenta uma história de uso, enquanto detalhes como gola acabada à mão, forro House Check, storm flap e fecho removível no pescoço explicam o trabalho de construção que permanece por trás da forma reconhecível.

Vinte e cinco anos de reinvenção

A seção final reúne 19 looks de passarela dos últimos 25 anos, incluindo criações associadas a Christopher Bailey e Daniel Lee. Entre os destaques indicados pelo museu estão um trench masculino bordado com espelhos, de inverno 2015; uma versão rosa em seda metálica, de verão 2013; e um modelo roxo com estampa barroca e franjas, de inverno 2025.

A seleção demonstra por que alguns produtos conseguem envelhecer sem ficar estáticos. A estrutura funcional atua como gramática: proporção, material, cor e ornamentação podem mudar, enquanto certos elementos mantêm a leitura de continuidade. O arquivo deixa de ser depósito e passa a funcionar como sistema de criação.

Da exposição temporária à presença institucional

A mostra também antecipa um compromisso maior. Burberry e V&A mantêm uma parceria plurianual que deverá culminar, no outono europeu de 2028, na abertura da Burberry Gallery — uma transformação das galerias de moda do museu em South Kensington. A exposição atual é, portanto, programação cultural e também construção de presença institucional de longo prazo.

Para marcas de luxo, o movimento oferece uma lição importante. Patrimônio ganha relevância quando é pesquisado, editado e colocado em contato com o público; não quando serve apenas de cenário para campanha. O museu fornece contexto e rigor, enquanto a maison disponibiliza o conhecimento material que torna o objeto legível.

Oportunidade para o Brasil

Há um campo pouco explorado no Brasil para tratar arquivos de moda, joalheria, design, automóveis e hospitalidade como cultura. Visitas comentadas, conversas com curadores e mostras pequenas podem gerar programação de qualidade sem depender da escala de uma grande retrospectiva. A Burberry mostra que um único produto, quando tem profundidade técnica e histórica, é suficiente para sustentar uma narrativa relevante.

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