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Mulberry volta à passarela com Christopher Kane e amplia sua ambição além das bolsas
Na primeira apresentação da maison em seis anos, Christopher Kane transforma códigos da Bayswater, do couro e de Somerset em uma coleção que recoloca o ready-to-wear no plano de crescimento da Mulberry.
A volta da Mulberry à passarela de Londres, em 20 de setembro, foi menos um exercício de nostalgia do que uma declaração de intenção. A coleção feminina de primavera/verão 2027 marcou a primeira apresentação pública de Christopher Kane desde sua nomeação, em março, e o primeiro desfile da casa britânica em seis anos. As peças chegam às lojas e ao e-commerce em janeiro de 2027.
Um retorno duplo
O encontro recoloca dois nomes britânicos em circulação. A marca de Kane entrou em administração em 2023; a Mulberry, por sua vez, atravessou queda de lucros, uma tentativa de aquisição e o desgaste provocado por aumentos de preço. Sob o CEO Andrea Baldo, a casa vem tentando recuperar clareza com a estratégia “Back to the Mulberry Spirit”, centrada em origem britânica, manufatura e expansão disciplinada de categorias.
Os primeiros números dão algum respaldo ao reposicionamento: no exercício encerrado em 28 de março de 2026, as vendas totais avançaram 5,7%, com crescimento em todos os mercados no segundo semestre e alta de 13,7% nas vendas comparáveis no Reino Unido. A passarela não prova, sozinha, a recuperação; mostra, porém, onde a direção criativa pretende procurar crescimento.
O arquivo sem virar fantasia
Batizada de “City Town Country”, a coleção usa o couro como ponto de encontro entre a linguagem de Kane e a competência histórica da Mulberry. A aba recortada da bolsa Bayswater reaparece como linha de decote e barra; o Postman’s Lock migra para cintos e calçados. A intenção é tornar a marca reconhecível pela construção, e não pela repetição ostensiva do logotipo.
A história de Roger Saul, que iniciou o negócio em Somerset produzindo cintos com sobras de couro, surge por meio de machados, uma referência à madeira e à árvore que deu nome à casa. O motivo aparece em saltos espelhados, camiseta e na nova bolsa curva The Chop. Um xadrez dos anos 1980 e o moletom Mulberry dos anos 1990 completam a leitura de arquivo.
Mais importante que o repertório visual é a arquitetura comercial. A linha foi concebida como ready-to-wear e acessórios autônomos, reabrindo um território que a Mulberry havia reduzido em 2020 ao encerrar sua licença de roupas e calçados. Bolsas continuam sendo o centro econômico, mas roupas, sapatos e uma narrativa forte de desfile ampliam ocasiões de compra e relevância cultural.
O novo luxo britânico procura especificidade
Kane afirmou querer uma ideia de britanidade que não dependa apenas de Londres. O contraste entre cidade, campo e herança industrial dá à coleção uma identidade mais precisa do que uma tentativa genérica de parecer internacional. É uma estratégia que outras marcas em recuperação também vêm testando: aprofundar origem, ofício e códigos próprios para voltar a crescer.
Para o mercado, o próximo teste começa em janeiro de 2027. Será preciso observar a distribuição, a faixa de preços, a recepção das novas bolsas e, sobretudo, se o vestuário gera tráfego sem diluir o negócio principal. O desfile devolveu ambição à Mulberry; a conversão dessa ambição em desejo recorrente ainda será medida no varejo.